J.R. Sant´Ana
Como epílogo das vertigens da década de 1960, 2001 – Uma odisseia no espaço preconizou o novo nascimento do humano. Não foi um simples filme, mas oráculo da alucinação digital que abduziria a civilização dali pra frente.
Com um leve riso de alheamento nos olhos, as pessoas deixaram as salas de exibição sob os acordes monumentais de Assim falou Zaratustra e com as retinas ofuscadas pela imagem de um gigantesco embrião humano que na tela mantinha os olhos abertos. Ao fundo, o cosmos, solene, impositivo, desafiador, imensurável. Qual seria o significado daquilo?
Para uma civilização que transformou seus filósofos em servidores do CNPJ, a perplexidade do público ainda se justifica. Faltou Stanley Kubrick escrever pedagogicamente na tela “Quando o ser humano vencer a tecnologia que ele criou e o faz prisioneiro, nascerá então o além do humano”.
Com o corte mais famoso da história do cinema, em que um osso feito arma e manuseado por um macaco eleva-se à condição de nave espacial, num resumo histórico de milhões de anos, 2001 narra a odisséia da criação humana. Feito à imagem do homem, o computador domina a cultura durante todo o filme. No final, o humano vence a arma que criou. É a redenção, movida pela vontade de viver.
Vencida a máquina, no filme, tudo o que sugere a antiga realidade transmuta-se para o incompreensível. Tem-se a travessia. A superação do si mesmo remete ao inimaginável. É o além do homem imerso em plenitude. O espírito de rebanho sintetizado pelo computador acaba pulverizado em galáxias. Todos os limites esgotam-se no fim. Resta o aqui e agora.
2001 é uma obra de Arthur Clarke adaptada ao cinema por Stanley Kubrick. Na tela, o diretor sugere referências a Nietzsche. É o que se pode deduzir por haver composto a música tema do filme, Assim Falou Zaratustra, título da intransponível e tão famosa obra prima em livro do filósofo alemão.
A associação entre as criações do escritor, do cineasta e do filósofo pode ser interpretada em pontos básicos. Nietzsche usou do martelo filosófico para desconstruir valores culturais que o ser humano criou e deles se viu prisioneiro. Sua proposta, sem detalhes, é a conquista da condição do além do humano. Fato a se verificar tão somente quando o criador superar a criatura, esta que, por amortecer a vontade de viver, transforma a humanidade em rebanho submisso a um poder caduco e externo.
Muito disso está no filme de Kubrick. A referência ao além do homem ali estaria lembrada principalmente pela música, uma remissão à figura do eremita Zaratustra, tão solitário e distante do mundo vulgar quanto o astronauta do filme.
O que muito impressiona na obra de Kubrick é que à época não havia computadores à disposição do mercado nem recursos de efeitos especiais para o cinema. Não obstante, a ficção apresentada traduz o que hoje é tão comum. No eixo da trama está Hall, o computador que enlouquece e domina o astronauta até ser vencido por ele. Logo após a vitória humana, perde-se o sentido linear da história. É o clímax.
O oráculo de 2001 está em vigor. Impensável é o mundo atual sem o computador. Sua desativação implicaria na completa inviabilização da vida no planeta. Basta lembrar-se do sistema financeiro. A cada minuto a situação de dependência aumenta. Até onde isso chegará? Eis a questão. A mídia digital, a título de dispositivo a favor da civilização, faz da humanidade um rebanho global. Urge um martelo?
Para o embate final prenunciado cabe exercitar-se e preparar-se para o desconhecido. Cabe fortalecer a musculatura da vontade de existência dispensando amortecedores para o medo da vida e da morte; cabe respirar o ar rarefeito das montanhas sem balão de oxigênio; responder com disposição à vertigem de quem caminha diante do abismo.
Até se ver, talvez, que o computador não seja propriamente o problema, mas apenas uma projeção de seu indecifrável criador. Que o humano é, de fato, o enigma a ser superado por si mesmo, luta na qual nenhuma ferramenta poderá ser útil, nem um computador.
Feliz ano novo, não há como ser diferente. Navegar é preciso. Viver também é preciso.
PS - Clássica por Homero, odisseia refere-se à lendária viagem que Odisseu, ou Ulysses, empreendeu por quase vinte anos até conseguir voltar para o lugar de onde partiu. É o retorno à origem.
Dezembro, 2011
(J.R. Sant´Ana é jornalista)
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